Fruto Silvestre

•Janeiro 7, 2012 • Deixe um Comentário

Sempre ouvi dizer que longe da vista, longe do coração. Mas eu não penso da mesma forma. O coração agarra as coisas com demasiada força, tanta que a maior parte das vezes nem as consegue deixar partir. E o cérebro essa coisa manhosa que faz da vida ser filósofo tem ciúmes, sente que o companheiro de longa data se envolve demais com coisas externas e também quer entrar na fotografia. Então aproveita a cegueira dos olhos e planta a semente da dúvida. Põe de lado a profissão de filósofo e torna-se jardineiro, todos os dias a rega, e pensa nela, e faz com que cresça até proporções desmedidas. Aí o coração magoa-se, amedronta-se, não quer voltar a passar pelo mesmo. Sabes chega um ponto em que os remendos são de mais, e já não há solução. Dizem que relações à distância não funcionam, o coração e a mente entram em colisão e ninguém sobrevive. Eu acho que os grandes amores sobrevivem, talvez não sejam os certos, ou talvez sejam, mas são grandes. Vais ter que aprender a distinguir, já demasiados corações se partiram não precisamos de mais um.

Bolas de Vidro

•Dezembro 27, 2011 • Deixe um Comentário

Tu cansas-me. Hoje em dia, tu e toda a gente. Nunca fui muito de pessoas, sempre fui mais de livros, filmes e silêncios. Sabes, se já estivermos sozinhos então ninguém nos pode rejeitar. Só nós é que podemos rejeitar e magoar, enquanto estivermos guardados na nossa bolha de solidão ninguém nos toca. Porque nós não deixamos. Parece que estamos rodeados de ar, quando no fundo são paredes de betão armado. É a vida que nos faz ser assim, de betão armado. Cria a armadura e protege-te porque as pessoas são ruins, vão querer sempre magoar-te. Assim és intocável, não te partes. Tens carimbo de frágil, mas os outros só reparam no este lado para cima. Afinal de contas o que conta são as aparências, as essências são transparentes, passam todas ao lado.

 

Quadros Abstractos

•Dezembro 2, 2011 • Deixe um Comentário

Quando me ponho a pensar ainda dói cá dentro bem no fundo. Não te vou mentir, não me és completamente indiferente, mas eu já te larguei da mão à muito tempo tu é que teimas em fincar as unhas com garra, a garra que te faltou. Eu cerro os dentes e finjo que não vejo, empurro estes resquicios de mágoa e saudade para o fundo e faço-te acreditar que não me importo. Tu, tu fincas mais as unhas à espera para ver se eu sangro. Eu sangro, mas o sangue a mim nunca me disse nada. Sempre empunhei as minhas cicatrizes bem no alto, são marcas de guerra sabes.

Dos corações frágeis

•Agosto 27, 2011 • Deixe um Comentário

Às vezes o medo ganha. Às vezes tenho medo que tudo se desmorone, tenho medo que os fantasmas voltem para nos assombrar. Tenho medo que acordes e mudes de ideias. Acho que desta vez não ia aguentar, não como da outra. Às vezes sou forte, a maior parte das vezes, mas outras vacilo. Às vezes tenho medo de mentiras, tenho medo de segredos. Às vezes questiono tudo em silêncio. Não digo, só guardo cá dentro. Às vezes o passado fica mais presente que o presente. Às vezes tenho medo da ingenuidade, a minha, e das coisas feitas só porque é o correcto. Eu não gosto do correcto, gosto do certo, do fazer as coisas por querer e não por supostamente dever. Às vezes tenho medo da substituição de coisas que não se podem ter, tenho medo do querer lutar contra coisas que não saiem nem que esperneies no chão e faças birra. Às vezes tenho medo das comparações, tenho medo do ser menos. Às vezes tenho medo do só porque não vai dar certo, só porque não tens alternativa. Às vezes tenho medo do faz-de-conta, e do prazer imediato. Às vezes tenho medo, muito, e não digo nada por ter medo que não percebas. Mas do que eu tenho mais medo é das mentiras, dos corações partidos. Às vezes tenho medo, mas só quando o medo ganha.

Empty mind and a broken heart

•Julho 14, 2010 • 3 Comentários

Desliza os pés pelos sapatos e levanta-se. Percorre a casa, completamente despida, apenas envergando os sapatos de salto alto pretos. Do topo dos seus, agora a mais, dez centímetros sente-se poderosa, como se nada a pudesse atingir. No chão, espalhadas, fotos, e cartas. Tolas palavras de amor perdidas no meio de gastas folhas brancas, misturadas com imagens que à muito deixaram o mundo real, apenas permanecendo intactas em papel brilhante de fotografia. Sai para a varanda e inspira profundamente, sentindo a brisa nocturna. Leva um cigarro aos lábios e acende-o, dando uma longa baforada, para de seguida expirar argolas de fumaça para o ar. Quão mais ingénua poderia ter sido? Desde o inicio que deveria ter adivinhado que um romance assim não duraria muito tempo. Os homens vivem disso mesmo, paixões fugazmente escaldantes. Momentos intensos de pouca dura. Aprendera isso, toda a sua vida. Mas naquele momento, naquele pequeno instante quando os seus olhos prenderam no azul profundo do olhar dele, não pôde deixar de dizer sim. Era impossível negar-lho. Foi tola em abandonar as suas regras e deixar-se levar por ele. Mas ele tinha-a na mão, como nunca outro homem a tivera. E aqui estava a prova, mais uma vez, de que apenas poderia contar consigo. Porque apesar de todas as promessas, ele acabou por abandoná-la. Deixou-a completamente sozinha. Partiu sem sequer olhar para trás. Mas ela não lhe daria o prazer de a ver sofrer por ele. Os anos de fingimento, e afastamento emocional, tinham-lhe dado a arma perfeita. A última palavra era dela. E ele nunca saberia o quanto ela o amou. Atira o cigarro e expira profundamente fechando os olhos. Achava impossível ainda sentir o cheiro dele, mas a verdade é que sentia. Volta costas à cidade, com os pequenos pontos de luz a brilhar na escuridão, e entra em casa. Passa por todas as fotos e cartas espalhadas pelo chão e pára em frente ao homem que acaba de apertar os botões da sua camisa Ralph Lauren. O homem passa uma mão pela sua cintura e beija-a lentamente. Ela sorri. Ao vê-lo sair, compreende que nunca na vida partilhou a sua cama com outro homem para além dele. Apenas a ele permitiu ficar, e entrar realmente. Fora um erro, agora percebia. Um erro que nunca mais repetiria. Senta-se na cama e leva mais um cigarro aos lábios perdida em mágoa. Este ia ser difícil de ultrapassar.

A carta

•Maio 8, 2010 • Deixe um Comentário

Sentada no escuro seguro a tua carta nas mãos. Ainda tem o teu cheiro, consigo senti-lo a irritar a ponta do meu nariz. Percorro o papel amassado, de tantas vezes ter sido lido e relido e relembro a sensação das tuas mãos frenéticas a percorrê-lo enquanto me escrevem. Imagino o que te tenha custado, expôr os sentimentos assim desta maneira, admitir os erros, e as saudades. Pena que já não haja volta a dar. Porque os meus sentimentos estão exactamente como o papel da tua carta, amassados, maltratados, do uso inapropriado que lhes deste. Não guardo rancor, apenas mágoa. Mágoa por aquilo que poderiamos ter sido juntos. Mas essa mágoa já não me mantém acordada à noite, apenas roça a superficie dos meus pensamentos enquanto durmo, perdida no limbo entre o consciente e o subconsciente. Enquanto seguro a tua carta nas mãos, sinto toda e qualquer racionalidade fugir-me pela ponta dos dedos. Sentada no chão em frente à lareira deixo o calor invadir-me e aconchegar-me. Pouso a carta nas chamas crepitantes e observo o papel contorcer-se até se tornar em mais um borrão no meio do fogo vermelho. Tal e qual como o que nos aconteceu. Está na hora de te deixar ir.

Pedaços de ti

•Abril 3, 2010 • Deixe um Comentário

Ele observou-a à distância de um aperto de mão. Queria-a mas sabia que não a podia ter. Os olhos dela, fixados nos seus penetravam até às profundezas da sua alma alimentando-o, devolvendo-lhe a vontade de viver. O coração dela queimava-lhe no peito, saltitando de desejo. Ela tinha saudades dele. Mas já não podiam ficar juntos. Tinha sido ele a decidi-lo. E agora ambos tinham alguém. Entre eles o tempo tinha parado, e apesar de sentirem a presença de outras pessoas, fugiram para momentos e lugares que só a eles pertenciam. Ele lembrava-se bem daquela noite. A forma como os seus lábios deslizaram, entre beijos e trincas. Como lhe desapertou o vestido rápida e habilmente. Como o corpo dela resplandecera perante a luz da Lua que entrava pela janela, somente coberto pelos longos cabelos castanhos. Lembrava-se de como se tinham devorado, entre suspiros e gemidos. Ela também se lembrava. Lembrava-se de como se tinha sentido quando ele desistiu dela. Lembrava-se do dia em que ele lhe disse que tinha voltado para a outra ela. E a dor das lembranças foi tanta que virou costas e saiu para o ar frio da noite. Ele seguiu-a. Odiava vê-la assim. Era como uma ter uma faca espetada no coração. Ela estava sentada nas escadas, e ele pressentiu a lágrima que lhe bailava no olhar. Deslizando suavemente as mãos pelos braços dela, reviveu a memória do sabor da sua pele. E quando ela se aproximou, inspirou o aroma que lhe restituía a vida. E ficaram assim a eternidade de uma vida. Ela queria-o. Ele desejava-a. Amavam-se de tal forma, que se o amor fosse uma chama, eles seriam consumidos num fogo ardente. E as palavras não bastavam para dizer o silêncio que os atormentava. Porque agora, eles não podiam ficar juntos. E quando ela se afastou, ele percebeu. Percebeu que eles eram tudo aquilo que nunca poderiam ser. E ao partir, ele deixou a sua alma com ela. E ela deixou o seu coração com ele. Porque mesmo separados, ficarão sempre juntos.

 
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